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  • Diário Económico

    Um conto de Natal


    Lá fora fazia um frio de cortar. Na sala aquecida, enterrado no conforto do sofá, ele tinha a vaga sensação de que os pensamentos esvoaçavam para longe, impelidos pelo ar quente da lareira. Num ápice, como que por milagre, tinham passado dez anos de mudanças alucinantes sobre os tempos difíceis daquele Natal de 2010.


    Por: Luís Paulo Salvado, CEO Novabase

    As suas memórias já estavam algo difusas, mas ainda assim suficientemente perturbadoras. Todos procuravam responsabilizar alguém pela crise, como se houvesse alguém inocente. Todos atacavam todos, políticos, empresários, trabalhadores. Aquele final do ano de 2010 tinha sido duro. Recessão e FMI eram termos que enchiam as bocas e minavam as ideias de quem necessitava, com urgência, de encontrar soluções. O simples recordar da vasta audiência então conquistada pelos profetas profissionais da desgraça provoca-lhe uma sensação de desconforto que nem a temperatura amena da sala ou a ergonomia do sofá atenuavam.

    Mas, de repente, fizera-se luz, como se uma estrela natalícia tivesse iluminado a comunidade. Ficara claro para todos que a superação das nossas debilidades nunca

    estaria nas mãos da Sra. Merckel ou de um qualquer D. Sebastião dos tempos modernos, mas sim na capacidade de cada português acolher, convictamente, essa ideia tão simples quanto poderosa: colocar o interesse colectivo acima dos interesses individuais!

    Milagre ou não, o bom senso imperara e era agora repousante fechar os olhos, na acalmia do lar, e rebobinar o filme das profundas mudanças operadas numa década, a começar pelas cedências e alterações profundas verificadas nas expectativas de todos. Sem excepções.

    O País, como um todo, tivera que “arregaçar as mangas” e mudar de vida. Começara-se por definir um rumo claro para o nosso desenvolvimento. E todos tinham feito a sua parte para cumprir esse rumo. Um gigantesco esforço colectivo

  • determinara um percurso coerente, capaz de resistir até às alterações nas lideranças políticas e/ou empresariais.


    O som abafado de uma campainha cortou-lhe, de repente, a linha do pensamento. Acordou, sobressaltado, com um pulo no sofá. Alguém estava a tocar à porta. Na TV, o comentador de serviço insistia que o Natal de 2010 seria vivido com dificuldades. Afinal, a magia natalícia atrasara-se. Mas a estrela mostrara-lhe claramente o caminho…

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