O caso dos pais suportados pelos filhos não é por si um choque. O dever de solidariedade intra-geracional assenta em princípios éticos básicos de qualquer sociedade. O caso das dívidas dos pais suportadas pelos filhos é, esse sim, chocante. No final quem paga não é quem usou ou ganhou posse. A Motivação é aquela que até agora parece ter sido inquestionável por estes lados: ter mais; não necessariamente melhor, mas mais. A Oportunidade, óbvia: facilidade de acesso a crédito para tudo e mais alguma coisa. A Racionalização do acto, vem do simples facto de 'toda a gente fazer o mesmo'. Parece fraude? Cheira a fraude? Sabe a fraude? Mas não é bem fraude, mesmo que encaixe que nem luva na definição. Isto porque um comportamento social e culturalmente generalizado e vindicado não é considerado um acto ilícito ou marginal. Talvez se devesse abrir um novo campo de estudo: a Auto-
fraude, a fraude sobre nós mesmos, individual e socialmente, que estudasse estas tipologias algo 'masoquistas' de utilização dos recursos disponíveis. Fica a sugestão.
Sinto-me defraudado, enquanto pessoa e cidadão. Daí uma certa perspectiva biliar no que escrevo acima. Custa-me perceber que as minhas filhas vão provavelmente viver numa sociedade mais desigual que eu. Custa-me sentir que há uma certa ilusão colectiva sobre a realidade, em que todos tentam achar 'os culpados' mas ninguém olha realmente para si, para o que se passou e passa a partir de uma perspectiva crítica, objectiva, e que pudesse ajudar a refundar alguns tiques culturais que melhorassem a perspectiva colectiva e individual do futuro.
A causa da crise actual é, em meu entender, sobretudo uma grande Auto-fraude colectiva, assente na desresponsabilização e corrupção generalizadas. Quisemos simplesmente ter mais (não ser mais ou ter melhor), não interessando os meios ou as consequências que daí poderiam advir. Acreditou-se piamente no wishful thinking de que 'isto é sempre a crescer'. E não é. Estoirámos recursos económicos, pessoais, espirituais, culturais e naturais em busca de algo que não se sabe sequer bem o que é, sem peso, conta ou medida. Acreditámos que os recursos são infinitos, assentámos a nossa vida numa cultura de desperdício, esquecemo-nos das pessoas, de nós próprios. Defraudamos as possibilidades de uma vida sustentada e sustentável.
Urge aprender com os erros. E ter consciência. A culpa de